A Lanterna de Diógenes e os 7 Erros dos trainees da Folha.

Informativo nº G25005

Ref.: A Lanterna de Diógenes e os 7 Erros dos trainees da Folha.
(Série: Os Filhos da Pauta)

S. Paulo, 09 de agosto de 2005.

Jabaquara – Cidade Livre

A Lanterna de Diógenes e os 7 Erros dos trainees da Folha.

“Não se pode dar o que não se tem”

O Caderno Especial “7 soluções para a escola pública” (Trainees do Jornal Folha de São Paulo, 01/08/2005) comete vários dos erros mais comuns praticados pelos jornalistas profissionais que cobrem a área da Educação. Cumprir, cegamente, uma “pauta” imposta pela Redação, faz com que os jornalistas ignorem os fatos que vão contra a proposta editorial do veículo de comunicação.

Os trainees não responderam à pergunta básica: Qual é a função da Escola Pública?

O fato dos “trainees” terem estudado em escolas particulares pode explicar a preferência por entrevistas com “autoridades”, “especialistas” e “sindicalistas”, ignorando alunos, pais e as comunidades do entorno das escolas.

A ordem de apresentação das “soluções” já demonstra o viés dos “especialistas”:

1: FINANCIAMENTO;  2: GOVERNO;  3: PROFESSORESCapacitar continuamente e avaliar o desempenho dos professores; 4: ENSINO; 5: PAIS E SOCIEDADEEnvolver os pais e a comunidade na gestão da escola pública; 6: ESCOLAS; e 7: MÉTODOS.

Ao iniciar pela “falta de dinheiro”, os trainees adotam o discurso dos “sindicalistas” que só falam em “salários”.  Somente na “solução 3” é que se fala em “avaliar o desempenho dos professores”. Mesmo neste quesito, a maioria dos “especialistas” não aceita classificar as escolas e avaliar os professores segundo o desempenho de seus alunos.

A “5ª Solução” (“envolver pais e a comunidade na gestão da escola pública”) deveria ser a “Primeira Solução”. Mesmo reconhecendo que “Essa é uma das soluções mais freqüentemente apontadas pelos especialistas entrevistados pela Folha para os problemas da escola pública“, o “trainee” Octávio Motta Ferraz, preferiu brigar com os fatos quando não foi capaz de encontrar uma única escola pública em que o Conselho de Escola (CE) ou a Associação de Pais e Mestres (APM) funcionassem bem, respeitando a legislação e a participação dos alunos, pais e comunidade. Embora uma “pesquisadora” tenha afirmado que “A escola fecha a porta para os pais; na verdade, ela não quer, com raras exceções, que os pais estejam dentro da escola”; e que uma mãe tenha dito que “os pais mais ativos são discriminados” por diretores e professores. “Eles só querem pais para fazer mutirão; arrecadar dinheiro para festa junina“, o “trainee” preferiu registrar: “eles nem sempre funcionam adequadamente”, quando deveria reconhecer que os Conselhos “raramente” funcionam adequadamente.

O caso desse trainee é emblemático. Ele pediu a pessoas do Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública (COEP) que lhe indicassem pais da escola pública, mas ignorou e não publicou o resultado das entrevistas:

·         Em 08/06/2005, o trainee encontrou-se com três pais da Escola Estadual Visconde de Congonhas do Campo (Tatuapé, zona leste da Capital), os quais denunciaram a manipulação de verbas da APM e a diretora que ameaçou chamar a polícia para um pai que não quis assinar “cheques em branco”. [Eles mantém uma comunidade no Orkut: “Eu tenho filho na Escola Pública”]. O trainee pôde ver e ouvir relatos de cinco outras entidades que denunciaram (na TV Legislativa) irregularidades das escolas públicas, incluindo a presidente do NAPA (Núcleo de Apoio a Pais e Alunos – www.oocities.com/napa_org); e que tem o “blog” Cremilda Dentro da Escola – http://cremilda.blig.com.br.

·         Em 11/06/2005, o “trainee” solicitou à senhora Cremilda que lhe indicasse uma APM e um Conselho de Escola que funcionasse direito e dentro da lei. Ela respondeu: “eu também queria conhecer um” (*).

·         Em 21/06/2005, o “aprendiz de jornalista” perguntou a um dos coordenadores do COEP “qual teria sido a maior conquista do Movimento?”. A resposta foi “a campanha feita em 1998 que informatizou e unificou as matrículas no ensino fundamental da Cidade de São Paulo, acabando com a dupla-matrícula e o aluno-fantasma”. Foi-lhe informado que a atuação do COEP estava disponível na internet: COEP.cjb.net . Mas, o “aprendiz” retrucou dizendo que o site estaria “desatualizado” (sic). Curiosamente, ele divulgou um “site” que não é atualizado desde 2002.

·         As escolas públicas, citadas como “exemplos”, são conhecidas pela exclusão que praticam contra os alunos de famílias pobres. A maior parte delas o COEP já denunciou no artigo “Ao que vai chegar…” (06/01/2004): “Não acredite na existência de “350 Escolas Modelos”. Esta “propaganda enganosa” é feita pela própria corporação. Elas são consideradas “modelos” mais pela “exclusão” de alunos do que pela proposta educacional ou pelo respeito aos alunos. Note-se que o próprio secretario de Educação reconhece que 20% das escolas são ruins. 1200 escolas!

A entrevista do Secretário Estadual de Educação de São Paulo foi a que mais indignou aos pais, pois ele afirmou que “matricularia” um filho seu em escola pública. Mas, registrou: “Acho que depende do lugar em que eu estivesse morando” (sic). Detalhe importante: a integra das entrevistas está disponível no site da Folha Online.

Se os trainees entendessem que a função da escola pública é garantir a liberdade para a construção do conhecimento, eles teriam destacado a frase do Gustavo Ioshpe: “As crianças abandonam porque a escola é ruim”. Isso fez lembrar a resposta do filósofo Diógenes (*) diante da oferta de Alexandre Magno, o qual estava-lhe fazendo sombra: “Pede-me o que quiseres”. Diógenes respondeu: “Não me faças sombra. Devolva-me o sol” (“não me tires o que não podeis me dar”). Além de não ter liberdade, os professores das escolas públicas tentam tirar a liberdade e a criatividade dos alunos.

Em resumo, identificamos que faltou os “aprendizes” entrevistarem os pais dos Conselhos; faltou informar qual foi o atendimento dado aos alunos quando 9 professores faltaram na EE Brigadeiro Gavião Peixoto; faltou registrar as denúncias contra as autoridades que se omitem ou compactuam com as irregularidades; etc.

(*) Diógenes, filósofo grego (400 a 300 AC), carregava uma lanterna “a procura do Homem verdadeiro”. Há mais de 10 anos que o COEP procura um Conselho de Escola ou uma APM que funcionem adequadamente: direito e dentro da lei.

Mauro A. Silva – “1995/2005 – 10 Anos Contra os Abusos do Poder Público”
https://gremiosudeste.wordpress.com/

Fechar a Febem/SP. Diga não à tortura. – FecharFebem.cjb.net


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