Filosofia da “escola dominical”.

Filosofia da “escola dominical

O professor-filósofo Renato Janine Ribeiro aproveitou o último domingo para fazer mais uma de suas pregações religiosas dominicais.
Enganou-se quem pensou que o professor-doutor iria rever suas posições que colocavam em cheque a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, um dos mais perfeitos documentos contra o arbítrio do Estado e contra os tiranos de toda ordem, inclusive contra os simpatizantes do nazismo e contra todos que não reconhecem a prioridade do atendimento dos direitos das crianças e também dos direitos dos alunos de escola pública.
No artigo “Dizer o indizível” (Folha de São Paulo, 04/03/2007), encontramos uma “nova pérola” do professor-doutor de ética e filosofia na USP: “Na insuficiência das soluções leigas para os problemas do crime, não tenho visto saídas a não ser as marcadas pela religião (…)” (sic)

Dividir o humano do bestial”
Faz parte do fundamentalismo religioso negar a “humanidade” das pessoas e “dividir o humano do bestial”.
Assim como um dos assassinos tentou “desumanizar” o menino João Hélio, ao referir-se a ele como “boneco-de-judas“, também encontramos “pessoas-de-bem” tentando “desumanizar” seus desafetos, o que permitiria torturar e sodomizar estes “seres bestiais” sem sentir culpas nem remorsos.

Crianças e alunos também são seres humanos
Os artigos do professor-doutor-filósofo Renato Janine Ribeiro (“Razão e sensibilidade” e “Dizer o indizível“) não apresentam nenhuma originalidade, mas reforçam as teses daqueles que não reconhecem “humanidade” nas crianças e nem nos alunos de escolas públicas. Os “sentimentos” do professor Renato Janine Ribeiro podem ser encontrados em qualquer pregação religiosa dominical – que prega o uso da vara contra crianças de todas as idades – ou até mesmo no programa do “Ratinho”. Vejam como o apresentador Carlos Massa, vulgo “ratinho”, bestializou uma vítima para atenuar o comportamento criminoso de uma professora italiana que cortou a língua de seu aluno de sete anos em plena sala de aula: “o menino devia ser o capeta” (Jornal da Massa, SBT, 03/03/2007).
Qual é a punição para um adulto que corta a língua de uma criança de 7 anos?
Qual é a punição para um professora que corta a língua de um aluno de 7 anos?
Qual é o “prêmio” para uma professora a que corta a língua de um capeta?

Torcer, tornar, torturar, atormentar…
O professor-doutor diz: “Ora, “imaginar”, “torcer” não é “propor, fazer, recomendar“. (“Dizer o indizível”, Folha de São Paulo, 04/03/2007). Esta foi uma vã tentativa de modificar o sentido de suas palavras escritas no artigo “Razão e sensibilidade”: “Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido.
Será que o professor-doutor de Ética da Universidade de São Paulo desconhece a o significado popular do termotorcer”?
Segundo os bons dicionários, torcer” significa manifestar sua preferência pela vitória de uma equipe desportiva, uma agremiação ou de uma causaTorcer para que” equivale a “ansiar, esperar ou fazer votos para que alguma coisa corra de determinada forma”.
A etimologia (estudo da origem e da evolução das palavras) do termo “torcer” sugere que o seu uso pode esconder sentimentos mais sombrios, pois “torcer” vem de “torquèo,es,torsi,tortum,torquére – ‘torcer, tornar, torturar, atormentar“…

Imputabilidade e irresponsabilidade
Será que o professor-diretor de avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) não foi capaz de avaliar que seus artigos são desequilibrados, ambíguos e que, “ao se deixar levar pelo horror, há o perigo da banalização” (nas palavras do filósofo Ruy Fausto)?
Será que o professor Renato Janine Ribeiro não avaliou que seus artigos ambíguos deram margem para a defesa da institucionalização dos maus-tratos, da tortura e da pena de morte?
Ou será que o professor-filósofo da USP vai alegar incapacidade mental relativa para não ser avaliado e nem julgado como adulto-responsável pelos seus artigos que mais parecem uma “filosofia de escola dominical“?

Leia aqui os artigos publicados na Folha de São Paulo:
Razão e sensibilidade” (Renato Janine Ribeiro, 18/2)
Convite à filosofia da morte” (Vinicius Torres Freire, 20/2)
O professor acha que pena de morte é pouco” (Elio Gaspari, 25/2)
continua…

Postado por: Mauro A. Silva – Presidente do Grêmio SER Sudeste – Promoção da Cidadania e Defesa do Consumidor

Publicado originalmente no site:

Cremilda Dentro da Escola – http://cremilda.blig.ig.com.br

05/03/2007 17:30

Convite à filosofia da morte.

Jornal Folha de São Paulo

São Paulo, terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

VINICIUS TORRES FREIRE

Convite à filosofia da morte


Filósofo prega que o desejo de torturar e matar influencie as razões do debate público sobre Justiça e punição do crime


UM INTELECTUAL que deseja a tortura demorada e a morte dolorosa de homicidas. Trata-se do filósofo Renato Janine Ribeiro, segundo conta ele próprio em artigo publicado no Mais!, na Folha do domingo de Carnaval. Até aí, tudo bem. Na noite escura da alma, todos os gatos são lobos pardos, diria San Juan de La Cruz se escrevesse horóscopos. Mas o que interessa não é o desfile de emoções de Janine, mas seu entrudo filosófico.
Janine meditou seu artigo ainda transtornado pela morte horrível do menino João Hélio. Essa emoção suscitou desejos de vingança e “colocou em xeque” algumas de suas crenças, tais como a oposição à pena de morte e à tortura estatal.
Janine mesmo diz não saber se pleiteia a pena capital. Mas, para o filósofo, é “muito importante” que, em certa medida, suas idéias sejam consoantes com seus sentimentos. É preciso “criticar os sentimentos pela razão e a razão pelos sentimentos” que se apoderam de nós.
A não ser que Janine se considere um déspota do sentimentalismo esclarecido, ele deve admitir que, no debate público, outros cidadãos também teriam o direito de apresentar razões consoantes com desejos de vinganças odientas ou outro tipo qualquer de fúria. Isto é, Janine parece adepto de algum tipo de irracionalismo subjetivista.
Sabemos, porém, que as razões expostas no debate público são de qualquer modo conformadas por pulsões variadas e pelo interesse particular: econômico, estamental, corporativo etc. Mas Janine quer dar ao ódio status semelhante. Quer deduzir políticas públicas de seu horror, do seu turbilhão emocional vingativo. Trata-se de um idealista da pá virada, que deduz regras da boa Justiça a partir da sopa moral-emocional de sua alma.
Isto é, Janine não leva em consideração nenhum elemento da realidade que influencia crime e castigo: cultura, economia, psicologia, processualística, polícia, estrutura judicial, criminalística, nada.
Há argumentos para defender ou refutar a pena de morte? Em termos morais, sem “parti pris” político? Difícil. A pena capital é objeto daquelas discussões em que se confrontam princípios abstratos irreconciliáveis, como em debates sobre aborto, eutanásia, direito de se drogar ou de portar armas.
O problema-chave aí não é a irredutibilidade dos argumentos a um ponto comum, ao consenso, ou a impossibilidade de evidenciar razões e desrazões. O problema é a incompatibilidade total dos princípios abstratos em confronto, como as opiniões sobre liberdade individual ou direito à vida.
Mas, se os princípios deixam de ser abstratos, se argumentos se traduzem em formas de pensar a sociedade e se as razões têm conteúdo real, tais princípios passam a expressar preferências políticas.
Um exemplo: dizer apenas que a pena capital ofende o direito à vida é pregar um princípio abstrato. Diferente é dizer que a condenação à morte torna irreversíveis os erros dos tribunais. Que tal pena é influenciada por fatores como classe, raça, contexto social etc. Que a pena capital legitima e institucionaliza a idéia de que a morte pode ser uma boa coisa, assim como a vingança cruenta. Que, se um cidadão quer uma sociedade menos injusta e violenta, não deveria aceitar a pena capital, dados tais argumentos.
Tal debate também pode levar a conflitos insolúveis. Mas as partes em disputa terão de explicitar qual tipo de sociedade preferem e tendem a criar, dados os efeitos práticos de seus princípios.
Janine não ofereceu razões para a pena de morte. Propagandeou a idéia de que a desordem furiosa das razões deve ter lugar no debate público. Deu a entender assim que tipo de sociedade prefere.

vinit@uol.com.br

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